Como os técnicos vivenciaram o pouso na Lua

Estações de rastreamento acompanharam a missão Apollo 11, que há 50 anos levou o primeiro homem ao satélite. Para quem participou, na Espanha ou na Austrália, o programa espacial foi bem mais do que um ato político.

Cinquenta anos após o primeiro pouso na Lua, ainda há quem fique profundamente emocionado, ao relembrar o dia 20 de julho de 1969. “Estava voltando de carro para casa, quando parei numa estrada de pista dupla. Estava escuro como breu, e saí do carro. Olhei para a Lua, e o pensamento me veio: ‘Meu Deus! Temos duas pessoas lá em cima, agora. As emoções eram muito, muito fortes”, conta Larry Haug.

Ele acabava de terminar seu turno como supervisor de sistemas informáticos numa das estações de rastreamento da Nasa em Fresnedillas de la Oliva, a oeste de Madri. “Era orgulho”, define ele ao telefone, em sua casa nos Estados Unidos.

A Espanha era um dos três locais onde a agência espacial americana construíra radiotelescópios para acompanhar o progresso de suas missões espaciais tripuladas.

A partir do momento, em 1961, quando o presidente John Kennedy anunciou que os EUA estavam indo para a Lua, a Nasa se movera depressa. “Nós não tínhamos nada, não tínhamos nem colocado nosso primeiro homem no espaço”, diz Haug. “E num prazo de oito anos pousamos duas pessoas na Lua. Foi incrível, o que fizemos.”

Alemães se preparam há uma década para enviar sonda à Lua

O programa espacial Apollo é uma história americana, com certeza. É uma história da Guerra Fria, também, de um Mundo Livre contra um mundo comunista fechado e, nesse sentido, uma história global. Seja como for, os americanos não teriam conseguido sem o resto do mundo, nem mesmo sem os russos, os primeiros a mandar um ser humano para o espaço.

A espora que impulsionava os americanos era a política. Do ponto de vista tecnológico, eles aproveitaram know-how de todo o mundo: técnicos e engenheiros da Europa e da Austrália, companhias do Reino Unido, além das estações de rastreamento, onde técnicos locais trabalhavam lado a lado com americanos.

Ao lado da espanhola Fresnedillas, os dois outros lugares eram Goldstone, no deserto de Mojave, EUA, e Honeysuckle Creek, próximo à capital australiana, Canberra. Eles formavam a cúpula de uma rede global que, ao longo dos anos, incluíra estações em Kano, na Nigéria, Guam, no Pacífico, e Bermuda, Antígua e Ilha de Ascensão, além de navios, todos conectados com o controle central em Houston, Texas.

Juntos, eles forneciam cobertura 24 horas a respeito da face do satélite voltada para o planeta. “A Lua orbita com a Terra de leste para oeste, e leva de 12 a 14 horas para completar esse trânsito”, explica Haug. “Quando se olha para o céu, nem sempre se vê a Lua. O pessoal em Houston não conseguia vê-la quando nós a víamos.”

A missão

Fresnedillas era a estação primária quando Neil Armstrong e Buzz Aldrin pousaram na Lua, enquanto Michael Collins observava de cima, do módulo de comando. Como nas demais unidades de rastreamento, lá se monitoravam os dados telemétricos dos astronautas.

“O ritmo cardíaco de Armstrong chegou a 120, 130, quando ele estava se preparando”, recorda Haug. De fato, as câmeras de TV captaram esse detalhe e o transmitiram ao vivo. “Levamos uma repreensão por isso, pois eram dados médicos, e não deveriam ter sido divulgados.”

“E quando deixei o trabalho, naquela noite, entregamos tudo a Honeysuckle Creek, para o primeiro passo na Lua”, relata Haug.

Para quem estava na Austrália em 1969, tudo o que se sabia é que aquelas lendárias imagens televisivas estavam sendo transmitidas para o mundo a partir da savana australiana.

Havia Honeysuckle Creek e o radiotelescópio Parkes. Este fora integrado há missão cerca de um mês antes do pouso, tão logo o plano de voo deixou claro que a Austrália estaria na linha de visão do satélite terrestre para o “salto gigante para a humanidade” dado pelos astronautas.

Gillian Schoenborn e colegas na seção de comunicações de Honeysuckle Creek, em 1969

Gillian Schoenborn trabalhava na seção de comunicações em Honeysuckle Creek. Ela e seus colegas do sexo masculino passavam imensas mensagens escritas, com instruções para a missão, telemetria e atualizações médicas, através de John Saxon, Ken Lee e Mike Dinn, na sala de operações.

Vinda da Marinha e de um emprego um tanto “chato”, ela estava entusiasmada com seu novo trabalho, que tinha a ver com gente, gente de todo o mundo. “Foi monumental, não há outra coisa a dizer. Na época, talvez a gente não visse como era significativo, porque quando se está vivendo a história, você não se dá conta, não é?”

Schoenborn está sendo modesta. Pois o mundo sabia exatamente o significado da aterrissagem na lua em 1969. “Todos no planeta estavam excitados”, diz Colin Mackellar, que expõe tesouros da história da Apollo no site HoneysuckleCreek.net. Por seus serviços à comunidade historiográfica, em 2019 ele recebeu a Medalha da Ordem da Austrália (OAM).

Aos 12 anos ele havia acompanhado as missões Mercury e Gemini, da Nasa, que lançaram os alicerces para a Apollo. Isso o inspirou a estudar ciência. “No fim dos anos 70, eu torcia para as missões humanas nos planetas começassem logo, e que houvesse demanda de geólogos para a análise das amostras trazidas. Mas isso não aconteceu.” Em vez disso, Mackellar tornou-se pastor da Igreja Anglicana Australiana.

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